terça-feira, 8 de maio de 2012

Gosto muito do Projeto Sei Mais Física, que pertence ao Instituto de Física da UFF e tem a coordenação da Prof. Sonia Rodrigues. Segue entrevista dela para o Ciência Hoje. Legal a defesa do trabalho de qualidade do professor que ela desenvolve nessa matéria. Curtam!



Escritora e doutora em Letras, Sonia Rodrigues é também uma mulher da física. Ela não está nas salas de aula de escolas e universidades, mas é em torno de Sonia que giram projetos que estão ajudando a mudar os paradigmas de ensino de ciência no Brasil.
Tendo a internet e a inclusão digital como lema, ela ajuda a levar aulas para alunos que antes não teriam nem como chegar ao colégio por falta de dinheiro para condução. Um desses projetos é o Sei mais Física cujo objetivo é monitorar e acompanhar adolescentes do ensino médio que, assim, quase sem querer, descobrem a aptidão pela física. Aulas são filmadas, professores estão sempre disponíveis para tirar dúvidas. Alunos relatam suas dificuldades. Um projeto a longo prazo para formar cientistas.
A outra ideia de Sonia na internet mexe mais diretamente com a literatura: o Almanaque de rede. Uma espécie de jogo virtual em que os alunos, por meio do texto criativo, superam dúvidas e são ajudados a ultrapassar obstáculos da língua.
Sonia Rodrigues mantém também um blog no site do jornal O Globo, onde discorre sobre inclusão digital e suas experiências com educação. 
CH On-line:  Uma de suas principais bandeiras é a da inclusão digital. Há quem aponte a disparidade que existe entre os métodos de ensino atuais e aquilo que os jovens podem descobrir via internet. Ou seja, os professores estariam atrasados nas práticas de ensino, deixando de explorar o universo digital nas aulas. Há alguma reavaliação das práticas de ensino que as escolas e os professores deveriam fazer?
Sonia Rodrigues: Hoje é impossível ensinar bem sem recorrer ao computador, sem lançar mão da interação via computador, internet, celular.
É preciso corrigir, primeiro, o equívoco de que o professor não ensina, não inicia o aluno ao conhecimento, não faz a mediação entre o que o aluno sabe e o que não sabe, porque passamos anos ouvindo esse tipo de coisa. Isso é uma bobagem. Tudo na vida exige iniciação, de aprender a ler a usar drogas.
"O diploma de licenciatura deveria depender de X horas de navegação na internet"
Os professores deveriam, pelo menos, ser incluídos digitais. O diploma de licenciatura deveria depender de X horas de navegação na internet.
Em segundo lugar, os professores deveriam partilhar com os alunos sites de cultura e ciência, propor exercícios relacionando o assunto da aula com navegação, estimular a avaliação entre pares em blogues supervisionados e enviar SMS avisando de provas, exercícios, dicas. Só isso já faria uma diferença enorme no aprendizado. 
Que consequências esta inclusão digital dos professores teria, especificamente, na área de ciência?
No ensino fundamental e médio, professores incluídos tecnologicamente teriam muito mais chances de atrair para a ciência um número maior de alunos. Conforme os alunos percebessem que Google e YouTube , blogues e SMS podem levá-los a partilhar experiências de alfabetização científica com o mundo todo, a ciência se tornaria mais instigante. Facilitaria a vida do professor que fica se esgoelando para ensinar.
Ainda sobre inclusão digital: como os seus projetos – Almanaque de rede e  Sei mais Física – podem mudar os paradigmas de ensino, dentro e fora da sala de aula?
O Almanaque da Rede é uma escola de imaginação paralela e não concorrente com a escola regular. São 4.200 alunos, hoje, escrevendo, comentando o que os outros alunos escrevem, se expressando. É a demonstração que se potencializarmos a aprendizagem baseada em computadores, se criarmos redes sociais de aprendizagem,  a juventude escreve, aceita críticas, cresce intelectualmente.
O Sei Mais Física quebra o conceito de que física é uma coisa chata e quebra a distância entre universidade e ensino médio. São mais de 25 mil visualizações das 50 vídeo-aulas que nós temos no site, são alunos do ensino médio sem medo de perguntar, de tirar dúvidas sobre física ou sobre redação, leitura.
Os dois projetos trazem a discussão para o território da gestão da aprendizagem. Isso é fundamental, porque gestão depende  bastante dos sujeitos envolvidos (professores, tutores, alunos), não só de decisões macro. Não apenas as políticas públicas ou a questão de recursos financeiros.
Em projetos como esses, fica mais fácil a gente perceber quem quer e quem não quer que as coisas mudem.
Você acha que falta no país uma cultura de valorização do professor, da importância do professor?
Penso que os professores são a categoria que mais se esforça, mais contribui para a coesão social no Brasil, a categoria que torna menos insuportável a desigualdade e a injustiça social no país, principalmente, os professores que estão no  ensino fundamental e médio, e os professores universitários que gostam de ser professores, que têm orgulho da profissão.
Algumas pessoas que não são professoras, que nunca pisaram numa sala de aulacom 48 adolescentes, na periferia de uma grande cidade brasileira ou na zona rural,  acham que estão valorizando a categoria dizendo que o ensino no Brasil é ruim por causa dos baixos salários. Não estão valorizando. O subtexto é que não é possível ser bom professor ganhando pouco mais de 500 reais por 12 horas em sala de aula. É um raciocínio perverso, porque lamenta os salários, mas está, ao mesmo tempo, menosprezando quem aceita trabalhar por esse salário.
Acontece que existem muitos professores que são bons, que são dedicados mesmo ganhando esses salários, porque consideram que todo trabalho digno merece ser bem feito.
"É necessário  parar de achar que sucesso profissional vem só a partir de certo patamar de dinheiro"
Precisa aumentar o salário? Precisa. Precisa qualificar melhor os professores? Precisa. Porém, é necessário também parar com essa mania nacional de achar que sucesso profissional vem só a partir de certo patamar de dinheiro ou honrarias acadêmicas.
Você teria algum palpite de por que a opção pela carreira de físico é tão pouco valorizada pelos alunos que concorrem ao vestibular?
Acho que ajudaria bastante se fosse quebrado certo clima de que bom é fazer pesquisa, licenciatura é coisa para incapaz ou para otário que se submete a condições de trabalho aviltantes.  Isso não é só na física, é uma distorção brasileira (talvez mundial, não sei, mas certamente brasileira). 
A gente tem um traço cultural, um vício cultural de estragar boas ideias. A ideia de fortalecer a pesquisa, formar milhares de doutores com menos de 30 anos, premiar a publicação de artigos foi muito boa, mas virou uma distorção.  Não tenho conhecimento de uma atuação massiva de  professores universitários de física  fazendo  divulgação científica, extensão, indo aos colégios de ensino médio. Pode ser que alguns considerem que não ganham para isso, não vão receber pontos como receberiam pela publicação de artigos. Se muitos alunos do ensino médio não têm professores de física, se os licenciandos são menosprezados dentro dos institutos de física, os novos professores de física, os que chegam às salas de aula, chegam “por baixo”, sem terem sido preparados para enfrentar as adversidades.
Como fazer, então, para que haja mais interesse pela física?
Na situação de emergência que o país está vivendo, mais de 23 mil vagas e apenas cerca de sete mil licenciados em 12 anos, acho que os cursos de licenciatura em física deviam divulgar em todos os colégios públicos de suas regiões essa realidade e deviam ter programas (como o Sei Mais Física) que apostassem em quatro direções: 1) Divulgação de que ser professor de física é bom e tem emprego garantido; 2) Seleção por meio de testes de candidatos a prestar vestibular para a licenciatura em física; 3) Bolsa para os alunos de terceiro ano que se comprometessem a seguir o programa; 4) Cursos de reforço de física, matemática e português e tutoria on-line para aqueles alunos bolsistas que se comprometessem a seguir o programa e fazer o vestibular.
Sala de aula, quadro negro, horário, escola, ensino formal etc. ainda fazem sentido no mundo em que vivemos hoje?
Todo sentido. Em minha opinião, no Brasil, nós vivemos em  “vários” mundos. A escola, o horário, a socialização, a merenda, os rituais de uniforme, de pertencimento são muito importantes. A escola é o único espaço de socialização da enciclopédia científica e cultural que milhões de brasileiros têm acesso. Precisamos tomar o maior cuidado, no Brasil, para não transformar a realidade de setores de classe média alta em modelo para a educação no país. Tudo o que puder ser feito para incluir e promover alfabetização científica no Brasil vale a pena.
Como você enxerga o futuro do ensino de ciência no Brasil?  
Sou muito otimista, por um lado, porque acredito nas pessoas e instituições que tentam difundir ciência. Precisamos formar milhares de professores (e rápido) para reverter o quadro que está aí, e eu espero que muitos professores  de ciências, nas universidades, se dediquem a isso.
Por outro lado, me preocupa a nossa mentalidade elitista, patrimonialista que faz comque alguns se sintam donos da ciência, donos dos cursos, dos colegiados, quasecomo se a universidade ainda vivesse na época da cátedra.
Acho que o excesso de especialização e a ideia de que existe uma divisão entre os cientistas e os outros (entre os quais talvez alguns cientistas me incluam) atrapalha.
Porém, sou otimista. Acho que enquanto existirem espaços de discussão aberta sobre essas questões o futuro está ganhando.
Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line

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