domingo, 6 de maio de 2012

Este artigo é da pesquisadora Mayna Zatz... Sou fã dela principalmente por sua atuação como divulgadora científica...Foi publicado pela revista Veja em 2009 e trata do assunto clonagem. 

30/07/2009
 às 21:18 \ Arquivo

Estamos mais próximos de produzir um clone humano?

clones
Células reprogramadas de camundongo geram clone viável e fértil
Na semana passada  duas equipes de pesquisadores chineses demonstraram que células reprogramadas de camundongos, as chamadas células iPS podem gerar um animal clonado. As pesquisas foram publicadas nas revistas Nature Cell& Stem Cell, mas surpreendentemente a notícia não teve o destaque que eu esperava.
Para os cientistas  da nossa equipe, interessados em terapia celular ou em  utilizar células-tronco para descobrir os mecanismos que causam doenças genéticas, é uma grande notícia. Ela abre inúmeras portas para novas pesquisas que podem ser muito promissoras. Por outro lado, a partir dessa técnica, talvez seja muito mais fácil produzir um clone humano, uma possibilidade rejeitada pela grande maioria dos cientistas. Será possível controlar isto? Como irão reagir os grupos religiosos que aplaudiram a descoberta das células iPS?
Reprogramar células adultas ficou muito mais fácil
Desde o nascimento da ovelha Dolly, que demonstrou pela primeira vez que uma célula adulta de um mamífero pode ser “reprogramada” e  adquirir as mesmas características de uma célula-tronco embrionária (CTE), os cientistas usam essa tecnologia para tentar originar tecidos em laboratório. Entretanto, essa técnica, chamada de clonagem terapêutica, apresenta uma grande dificuldade: requer o uso de óvulos, que no caso de seres humanos não são fáceis de serem obtidos.
A reprogramação de células por clonagem terapêutica foi proibida
“Isso vai abrir caminho para a clonagem reprodutiva’, clamavam os opositores. “Vai gerar comércio de óvulos!” Grupos religiosos se posicionaram frontalmente contra e poucos países permitiram pesquisas  envolvendo clonagem terapêutica. Meus argumentos de que elas dependiam de óvulos humanos, cuja obtenção era difícil e poderia perfeitamente ser controlada e regulamentada foram em vão. A nossa lei de biossegurança  aprovou as pesquisas com CTE  derivadas de embriões congelados, mas não permitiu a clonagem terapêutica.
Dois anos atrás surgiram as células iPS: a solução para os grupos religiosos
Em 2007, dois grupos de pesquisadores independentes, dr. Yamanaka e dr. Thomson demonstraram que células adultas de camundongos poderiam ser reprogramadas e adquirir características de uma célula embrionária de um modo muito mais fácil. Bastava ativar 3 ou 4 genes, inserindo-se um vírus dentro da célula, e essa célula aparentemente teria as mesmas propriedades de uma célula embrionária.
As células iPS foram aplaudidas por todos aqueles que se opunham as pesquisas com células embrionárias obtidas de embriões congelados ou derivadas de clonagem terapêutica. “Elas são a solução. Não será mais necessário destruir embriões.” Não perceberam que em teoria elas representavam o mesmo “risco” da clonagem terapêutica.
Entre cientistas a dúvida continuava
Elas são mesmo iguais? “Ainda sabemos muito pouco a respeito”, ouvi  o prof. Yamanaka afirmar no início de julho, em sua conferência no congresso internacional de células-tronco, em Barcelona. Ele mostrou que células iPS  obtidas de diferentes tecidos  comportam-se de modo diferente .
Elas conseguiram reproduzir um camundongo inteiro e fértil
Enquanto discutíamos o potencial das células iPS em Barcelona, cientistas chineses publicavam seus trabalhos demonstrando que elas são capazes de produzir camundongos clonados e férteis. Se essa mesma tecnologia funcionar com células humanas, realmente não será mais necessário destruir embriões e estaremos muito mais próximos de poder construir no laboratório tecidos ou órgãos que precisam ser substituídos, sem risco de rejeição. Poderemos ainda produzir linhagens celulares de pessoas portadoras de doenças genéticas e testar inúmeras possibilidades de tratamento diretamente nas células, sem usar o ser humano como cobaia. Por enquanto ainda é pesquisa básica, mas o futuro parece promissor.
Poderemos impedir o uso de células iPS na clonagem humana?
O grande risco é que pessoas sem ética queiram usar essa tecnologia para tentar gerar um clone humano. E o que é pior, como não necessitam de óvulos humanos, isso poderia ser feito em qualquer laboratório e “o clone”  inserido em qualquer útero. A curiosidade humana não tem limites. Poderemos controlar esses experimentos? Qual vai ser a posição dos grupos religiosos que tanto exaltaram as células reprogramadas iPS ? Será que pensaram nessa possibilidade? Os avanços científicos estão rompendo paradigmas a uma velocidade cada vez maior. Discussões envolvendo toda a sociedade serão cada vez mais necessárias.
Por Mayana Zatz

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